Ontem estava assistindo Saia Justa, do GNT, e houve uma discussão sobre a quantidade de livros de autoajuda que temos hoje em dia e a obrigação de sermos sempre positivos. Um escritor londrino, Oliver Burkeman, escreveu o “Manual AntiAutoAjuda – Felicidade para quem não consegue pensar positivo”. Achei muito demais porque há tempos venho pensando umas coisas meio assim, já me explico…

O famoso livro “O Segredo” foi citado, já que ele é um dos mais importantes manuais de autoajuda da nossa época e influenciou diversos outros que vieram em seguida. A Astrid Fontenelle (uma das 4  “apresentadoras” do programa, que discutem entre si temas da atualidade) disse que ele é uma porcaria de livro. Vocês sabem, eu adoro ler coisas que “ajudam a crescer e a me conhecer melhor”, mas tenho que reconhecer que algumas dessas coisas chegam a ser paralisantes e acabam travando nosso desenvolvimento ao invés de impulsioná-lo. Ela lembrou que no livro dizem que se você quer uma Ferrari é só sonhar com uma e pensar positivo que você terá uma. Realmente, a simplificação das coisas da vida nesse caso é impressionante. Eu mesma já escrevi milhares de vezes aqui no blog sobre o poder do pensamento positivo, sobre como nossa mente afeta nosso corpo e como nosso estado de espírito pode nos guiar para o bem – ou para o mal. Realmente acredito nisso, mas dizer que, com certeza, você vai conseguir tudo que quiser simplesmente com a força do pensamento, para algumas pessoas, tem efeitos ridiculamente destrutivos. Vocês já assistiram o filme “Pain & Gain”? É um filme de ação e comédia dramática que retrata um pouco do efeito que esse tipo de autoajuda pode ter  naqueles que os lêem sem a devida “bagagem psicológica e moral”. Recomendo! É ridículo e, pior, baseado em fatos reais. Ele vai mostrar exatamente o que estou falando aqui.

A Maria Ribeiro, outra apresentadora, falou sobre o “conselho” que esses livros dão de “se afastar de pessoas negativas”. E se indignou: “quer dizer que se você tem uma amiga que está passando por um momento difícil e, naquele momento, ela não consegue estar positiva, você deve se afastar dela?”. Alguns desses livros nos fazem acreditar que podemos “mudar” essa amiga, mostrando para ela como ser positiva. Mas gente… hello, né? Na maioria das vezes em que “tentamos mudar alguém” já estamos partindo do lugar errado. Tem coisas na vida que realmente são muito difíceis e é importante ter momentos de dúvida, medo e tristeza. Negar todos esses sentimentos causa alienação, como se não fôssemos seres HUMANOS e como se tivéssemos controle sobre TODOS os nossos sentimentos. Não temos! E nem teremos! Podemos ter mais controle sobre como reagimos a eles, como os direcionamos, como voltamos a ter um sentimento de paz e amor depois de um momento difícil, de raiva ou dor. Mas nunca vamos ter total controle sobre os nossos sentimentos – graças a Deus! E se essa pessoa “negativa” é sua mãe, seu pai, sua irmã, sua chefe, seu filho…? Vire as costas e abandone tudo e vá ser feliz sozinho na montanha? Para mim isso não serve. Temos que tentar nos blindar internamente, não deixar o negativismo da pessoa nos deixar negativos também, talvez direcionar as conversas… mas abandonar tudo, na maioria das vezes, não é uma opção – pelo menos para mim. Mas talvez seja por isso que muitos casamentos acabem tão rápido hoje… E o pensamento de que poderíamos e deveríamos “abandonar tudo” cada vez que estivermos insatisfeitos causa uma enorme frustração e muitos corações partidos – isso é buscar fora de você o que deveria vir lá de dentro, é colocar nos outros a responsabilidade sobre a sua satisfação e felicidade.

Controle, aliás, é uma palavrinha muito importante para mim. Eu adorava achar que eu tinha controle sobre a minha vida, sobre os meus sentimentos e decisões. Sempre fui muito racional – e passional também, o que dá uma bomba atômica, já que a razão fica tentando domar os sentimentos descontrolados o tempo todo!!! E, quando fiquei doente, uma das minhas maiores lições foi: “aprendemos que não temos tanto controle sobre as nossas vidas quanto gostaríamos”. A própria Maria Ribeiro citou pessoas que tem câncer, lembrando que muitas vezes é jogada sobre elas a “culpa” pela doença. Sim, porque em muitos desses livros se diz que todas as doenças são causadas por nós mesmos, pelos nossos desequilíbrios emocionais. Além da pessoa estar sofrendo com a doença, ela ainda é culpada. Eu realmente acredito que a doença é uma oportunidade imensa de avaliarmos nossas vidas e corrigirmos rumos, mas daí a acreditar que as causamos? E o tanto de gente má que existe e que não fica doente? Aposto que todos vocês conhecem alguém assim, não? Pensar que Hitler, por exemplo, escapou de diversos atentados – ele acreditava que era porque Deus estava do lado dele. Hum… “assaz interessante”, como diria um professor…

Por mais que tenhamos controle sobre nós mesmos, nunca o teremos sobre os outros e sobre os acontecimentos ao nosso redor. E eu confesso: já sofri muito com isso, é algo que vem sendo tratado na minha terapia (aquela que comecei a fazer quando me disseram que provavelmente eu não conseguiria ter filhos). Eu gostava de meditar e ficar naquele estado zen, quando nada nem ninguém te perturba. Sabe o que acontecia? Eu vivia frustrada e irritada, porque obviamente eu não conseguia. Até um dia que meu irmão me disse: “Heloísa, você sabe que você não é zen, né? Você tenta, mas não é sua natureza. Parte da sua felicidade vai ser aceitar que você é do jeito que você é e pronto.” Pode parecer engraçado, mas aquilo me deu um alívio! E um chacoalhão. Eu vivo uma vida, eu tenho família (para a qual eu não vou “virar as costas” quando me perturba), eu vou ao supermercado, eu ando no trânsito, eu tenho faxineira que falta, eu recebo notícias ruins pelo caminho… eu já bati carro, já fui assaltada, já tive câncer, já fui traída por amigas, já ouvi grosseria de vendedores e atendentes… E sabe o quê? Eu não tinha controle sobre nada disso. E NUNCA vou ter. E não, o mundo não é um espelho. A caixa do supermercado não foi grossa comigo porque eu fiz alguma coisa errada. Eu não fui assaltada porque tive pensamentos negativos sobre assalto. A faxineira não faltou porque eu “mereci”. Por mais que você tente ser perfeito, as coisas e as pessoas continuarão sendo imperfeitas, já que elas são indivíduos e não bonecos na sua caixinha de brinquedos. E a sua tentativa de ser perfeito vai te trazer uma enorme frustração. Eu era daquelas que achava que se alguém me traía era porque eu tinha feito alguma coisa errada. Se alguém era grosseiro comigo era porque eu tinha feito alguma coisa errada. Se alguém não gostava de mim era porque eu tinha feito alguma coisa errada. E, antes tarde do que nunca, venho aprendendo que por mais que eu trate alguém com todo o meu amor, isso não vai impedir que ela tenha sentimentos negativos com relação a mim, que podem vir da bagagem mais profunda da sua alma. Podem vir de lembranças da sua família, de algum trauma do passado, de alguém que fez algum mal a ela… E não, eu não tenho controle sobre isso. Eu não sou culpada.

Sinto que a busca da felicidade completa anda deixando muita gente insatisfeita e desesperada por pensar que está falhando no seu objetivo. A Barbara Gancia disse que ela não acredita nessa ideia toda de felicidade, que ela quer é ter uma vida concreta, um trabalho, amigos, fins de semana gostosos… e isso me fez pensar em quanta gente hoje idealiza a vida, os amigos, o casamento, o trabalho… de forma que tudo isso tenha que ser perfeito e trazer muita felicidade. Barbara, amei o que você disse! Dá um sentimento de paz tão grande pensar que ter uma vida, ter um trabalho, ter amigos e fins de semana gostosos podem ser a ideia de felicidade! E só! Sem ter que inventar milhões de coisas a mais, sem ter que idealizar o emprego ou o trabalho perfeito, o casamento de comercial de margarina, os amigos que estão sempre presentes quando você precisa e do jeito que você precisa… porque podemos buscar que as coisas sejam cada vez melhores e eu acho isso muito válido, mas temos que ser felizes no caminho, com o que temos, com o que somos! Não temos que ter controle sobre tudo. Decretemos a liberdade!!!

Enfim… apesar de todas as minhas divagações, espero que tenha ficado claro meu objetivo com esse texto: incentivar a liberdade, parar com as cobranças, com as expectativas irreais que temos de que a vida um dia será perfeita e que você terá controle sobre todos os seus sentimentos e reações. Desejo que todos vocês se sintam felizes com a vida como ela é, mesmo que não seja perfeita – nunca será. Uma observação importante: sim, eu continuo meditando, praticando yoga e tendo uma religião. Porém, não tenho mais a esperança e a cobrança interna de que tudo isso fará de mim uma pessoa 100% zen, equilibrada e “no controle” o tempo todo. Agora, essas são ferramentas para me centrar depois (ou antes) de um dia humano, para me ajudar a acalmar ansiedades e medos, para me ajudar a dar o melhor que eu puder dar naquele dia – nem mais, nem menos.

Namastê! Relaxe e seja feliz no caminho!

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Estamos quase terminando os 12 códigos da Kabbalah!!! Depois de colocar o décimo segundo, coloco a lista dos 12 aqui para vocês, tá? Hoje vou falar um pouquinho do código 11:

“Be helpful and considerate of all that exists. Never deceive or betray anyone.”

“Seja útil e tenha consideração por tudo que existe. Nunca engane ou traia ninguém.”

Às vezes coloco só em português porque a tradução fica ótima em significado, mas às vezes o código soa melhor em inglês mesmo… por isso coloco dos dois jeitos. “Be helpful”, melhor que ser “útil”, quer dizer estarmos sempre dispostos a ajudar, estar “a serviço”, sair da zona de conforto do egoísmo. Sempre existe uma maneira de ajudar, mesmo que seja através de um simples sorriso. Se soubéssemos como um sorriso pode mudar o dia de alguém, sairíamos por aí distribuindo sorrisos! Fora que ficamos radiantes e ao sorrir… até a pele fica mais bonita! Aqui entra um pouco o que eu falei no post “O que dizer, então”- (http://heloisaorsolini.com/?p=2193). Às vezes, ao invés de querer “arrumar soluções” para os problemas dos outros, pode ser muito mais útil estar disposto a ouvir, dar um sorriso, dar as mãos…

Ter consideração por tudo que existe inclui os animais também – devemos ter respeito, cuidado, zelar pela harmonia de tudo e de todos. E trair, nesse código, não tem a ver com os outros nos traindo, mas com a nossa responsabilidade em não trair os outros, o que também tem a ver com respeito e consideração. É importante sabermos que cada pessoa tem sua história e seus sofrimentos, por isso nós devemos ter consideração (de novo ela!) e compaixão por cada ser! A Kabbalah nos ensina que a única coisa que podemos mudar num relacionamento é… nós mesmos! Então, ela fala da nossa responsabilidade e das nossas expectativas, sempre. Nesse caso, nossa expectativa em não sermos traídos pelos outros. Falamos em diminuir nossas expectativas porque: “A chuva não é pessoal, mas você se molha de qualquer jeito.” Ou seja, às vezes as coisas que nos magoam não foram feitas contra nós ou para nos atingir. Pode ser que a pessoa “responsável pela traição” das nossas expectativas não tenha tido a menor intenção e nem tenha pensado em nós ao tomar alguma decisão, não por egoísmo, mas simplesmente porque muitas outras coisas estavam envolvidas naquele momento. Mesmo que “tenhamos nos molhado”, não foi pessoal. E por último mas não menos importante, não traia seus princípios e valores – não se engane. “Conheça-te a ti mesmo” e todas as suas decisões parecerão mais fáceis, além de ser muito menos provável que você traia alguém, pois as pessoas saberão o que esperar de você.

Resumo do código: coloque-se à serviço, à disposição, sem egoísmo. Tenha consideração pelas coisas, animais e pessoas. Dessa maneira, muito provavelmente você não irá trair ninguém, nem seus próprios valores!

Namastê!

Li uma ótima notícia e vou repassá-la aqui para vocês. Já falei algumas vezes, mas vou repetir: para mais informações sobre tratamentos, direitos do paciente, deveres dos planos de saúde etc, eu costumava consultar bastante a ABRALE ( http://www.abrale.org.br/ ) e o INSTITUTO ONCOGUIA ( http://www.oncoguia.org.br/).

“Exame considerado por médicos como fundamental para o acompanhamento de pacientes que tiveram ou estão com câncer, o PET-CT passará a ser ofertado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A inclusão ocorre com atraso de pelo menos 13 anos em relação às clínicas particulares e em um formato ainda muito acanhado, avaliam sociedades médicas.
O acesso será permitido para pacientes com linfoma, com câncer de intestino grosso, lesão hepática e em alguns casos de câncer de pulmão. Uma lista de opções bem menor do que a ofertada para usuários de planos de saúde. Desde o início do ano, operadoras são obrigadas a garantir o exame para pelo menos oito indicações.
“É o primeiro passo, mas esperávamos mais”, afirmou o presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear, Celso Ramos. De acordo com ele, estudos demonstram que o uso do PET permite uma economia na área de saúde.“Os tratamentos são mais dirigidos. São evitados tratamentos e cirurgias desnecessários e, além disso, o exame traz mais chances de diagnosticar precocemente novos focos de câncer no paciente.” A assessora técnica da secretaria de Atenção à Saúde, Inez Gadelha, rebate as críticas. “A decisão foi adotada de acordo com critérios rígidos, em evidências que demonstram quais as melhores indicações, com melhores resultados.” Pelos cálculos do Ministério da Saúde, 20 mil pacientes serão diretamente beneficiados.
O investimento com os exames será de R$ 31 milhões anuais.
Embora o PET de forma geral tenha um impacto positivo na economia, ele é um exame caro.
A dose do radio fármaco usada no teste custa, em média, R$800. A incorporação do PET ao SUS não será imediata.O governo federal terá até 180 dias para regular como e quando isso será feito. O exame está disponível em 21 Estados.”

(Reportagem; “Com atraso de 13 anos, SUS vai oferecer exame PET de câncer” – O Estado de S. Paulo, 24/04/2014 – Jornalista Ligia Formenti)

Bom, gente… o que eu posso dizer… sonho com o dia em que toda a população tenha acesso a um bom sistema de saúde, como é DIREITO de TODO cidadão. Claro, os que não têm dinheiro para arcar com o pagamento de planos de saúde em primeiro lugar. Mas, queria lembrar, todos nós, incluindo eu e todos o que pagam planos de saúde, também deveríamos ter acesso à saúde sem ter que pagar nada a mais com isso, fora os milhões que pagamos todos os anos de impostos. É bem revoltante ver políticos corruptos fazendo uso do dinheiro que cada um de nós leva cerca de 5 meses por ano para juntar e dar TODINHO para o governo para levar para o próprio bolso e deixar pessoas morrendo nas filas de hospitais, e depois vem falar que R$ 800,00 para fazer um PET é caro. Não tenho nem palavras para comentar. Só queria dizer uma coisa; enquanto as pessoas não se conscientizarem que a culpa dessa injustiça é do mesmo político no qual ele mesmo optou por votar e não “das elites”, essa situação não vai mudar. Afinal, muita gente considerada “das elites” são aquelas pessoas que trabalharam muito a vida inteira para poder dar uma vida um pouco melhor para os seus filhos, trabalhando à noite, de madrugada e a hora que precisar. Essas pessoas também teriam direito a escolas e hospitais públicos, segurança e outras coisas, mas além de pagarem 40% dos seus rendimentos em impostos, são “culpados” por toda a sujeira que acontece nesse país. Enfim… é isso!

A Páscoa…

22 de abril

Oi gente! Eu sei, a Páscoa foi domingo e hoje já é terça-feira mas… o que eu posso fazer se meus acessos de rebeldia de vez em quando vem dessa forma? Preciso melhorar isso… simplesmente não consigo escrever quando me sinto obrigada, tenho que escrever quando o coração manda!

Não poderia deixar essa data passar em branco. Ela é muito importante para mim! A renovação é uma coisa maravilhosa, é uma oportunidade que temos de nos reinventar, refletir, aceitar e seguir em frente. Para mim, é uma época de aceitar tudo pelo que passei e entender que sou uma pessoa melhor e mais forte hoje. Algumas vezes, durante o tratamento, eu ouvi: “Deus dá a cruz para aqueles que conseguem carregar” e eu pensava “Mas eu não quero carregar!”. Quem, conscientemente, quer sofrer? Obviamente ninguém. E eu acredito que nós merecemos a felicidade e o amor, coisas boas e lindas na nossa vida. Mesmo assim, às vezes a rota é desviada e nos pegamos perdidos no meio do sofrimento. Depois que passa, talvez bem depois, percebemos que somos mais fortes do que pensamos, que algumas coisas mudaram para melhor, que nos fortalecemos nas nossas crenças, valores e ideais. Melhor se não fosse assim, mas aí entra a aceitação e o recomeço: deixar todo o peso que não serve mais para trás e viver o presente com todo o coração.

Sei que para todas as pessoas que passam nesse momento por uma dificuldade a Páscoa tem esse significado. Renascemos mais fortes, vitoriosos, com a energia renovada. Estamos prontos para a vida com todas as coisas boas que ela pode nos oferecer. E temos muitas coisas boas a oferecer para ela também!

No folheto da missa de domingo, estava escrito: ” A Páscoa é a festa mais importante do ano… É a festa da Luz: o Senhor ressuscitado que nos ilumina, coloca imensa alegria em nosso coração, uma imensa esperança e o transborda de amor. Fomos todos recriados pela ressurreição de Cristo.” Achei muito lindo, é isso que eu acredito que seja a Páscoa: um banho de luz sobre nós, enchendo nosso coração de esperança e amor.

Desejo a todos vocês que a Páscoa tenha trazido esse sentimento! E, se não trouxe, sempre é tempo de fazer a luz brilhar e nunca é tarde para renascer no amor. Não importa por qual situação você esteja passando, coloque amor nela. Como uma lanterna que ilumina a escuridão, o amor ilumina qualquer tristeza, dor ou dificuldade. Ilumina a vida!

Para terminar, cito uma frase que eu adoro e que justamente nos lembra que nunca é tarde para renascer: “Pare de ficar andando em círculos em volta da pessoa que você quer ser. Pule de cabeça nela, completamente”. Não deixe para amanhã, pode ser tarde 😉

Beijos a todos, boa semana!

 

Depois do meu post “Desabafo Master” (http://heloisaorsolini.com/?p=2153), algumas pessoas “corajosas” kkkk perguntaram: o que a gente deve dizer, então? E sei que muita gente ficou com essa dúvida. Quando eu estava em tratamento, li um post de uma paciente de câncer parecido com o meu desabafo master e pensei a mesma coisa; “ué, o que restou para as pessoas dizerem?” porque, no caso dela, até “estou rezando por você” incomodava. No meu caso, eu gosto que digam isso. O caso é que eu já disse aqui que quando eu estava em tratamento não me incomodava com nada, mas comecei a me incomodar com a questão da incerteza sobre se poderia ou não ter filhos (já que 4 médicos me disseram que isso seria praticamente impossível pelos os meus exames) e com a questão do cabelo.

Deixa eu me explicar melhor: a questão do cabelo começou a me incomodar porque às vezes eu colocava uma foto no Facebook, por exemplo, de quando eu tinha cabelo comprido. Eu não colocava a foto por isso e não fazia nenhuma menção ao cabelo. Mas as pessoas, invariavelmente, começavam a comentar sobre ele e, também invariavelmente, surgia o comentário que cabelo era o de menos. Eu nem estava falando disso, nem estava reclamando, nem tinha colocado a foto por esse motivo, mas sempre surgia um “cabelo é o de menos”. E eu achei importante me posicionar porque sei que a maioria das mulheres que fica careca por causa de um câncer se irrita com esses comentários, tanto que eu recebi muitos comentários de apoio, de mulheres se sentindo “de alma lavada” e até que enfim compreendidas e representadas! O mais estranho é que esses comentários muitas vezes vem de pessoas que passaram pela mesma coisa, e eu entendo que seja porque elas estão tão felizes por estarem vivas que fazem essa consideração. Como eu escrevi no Desabafo, eu também estou feliz em estar viva, mas acho que não se pode colocar um peso desses nas costas de quem já teve qualquer problema grave de saúde. A pessoa continua viva a e vida é como ela é, tem dias que estamos felizes e dias que nem tanto, dias em que temos problemas e vontade de reclamar e – aí vem o motivo desse post – receber carinho.

Sobre a questão da fertilidade, prometo voltar ao assunto mais para frente, em outros posts. Esse post é para responder a pergunta que ficou: o que devemos dizer, então? Falei brevemente sobre isso em um post anterior, bem antigo, “O Poder da Presença”, onde citei: “Uma doença séria pode ser uma jornada terrivelmente solitária. Quando um perigo paira sobre um bando de macacos, desencadeando sua ansiedade, seu reflexo é colarem-se uns aos outros e catar-se mutuamente as pulgas, de modo febril. Não reduz o perigo, mas reduz a solidão. Nossos valores ocidentais, com seu culto de resultados concretos, muitas vezes nos fazem perder de vista a necessidade profunda, animal, de uma simples presença em face do perigo e da incerteza. A presença doce, constante, segura, é com frequência o mais belo presente que os próximos podem nos dar, mas poucos deles sabem seu valor” – trecho tirado do Anticâncer, de David Servan-Schreiber. Resumindo: queremos receber carinho e saber que não estamos sozinhos.

Muita gente não pode imaginar o poder que uma “simples” PRESENÇA pode ter. Não estou dizendo que você precisa ficar o dia inteiro do lado da pessoa, não. Estou dizendo que simplesmente parar e se colocar no lugar do outro, abrindo seu coração para simplesmente entender a sua dor e mostrar que você o compreende e está torcendo por ele, ao invés de tentar “fugir mais rápido” dos problemas com algum comentário que “corte a linha de reclamações”, tem um poder imensurável. Já repararam que muitas vezes os comentários que citei (como “isso é o de menos”, “Deus que quis assim”, “você pode adotar” etc) nada mais são do que fugas? A pessoa não sabe como lidar com o sofrimento do outro e, por isso, faz esses comentários que teoricamente “cortam o mal pela raíz”. O “ouvinte” não tem o que argumentar e não lhe resta nada a não ser ficar quieto (e com raiva rsrsrsr…). Como você diz, por exemplo, para alguém que acabou de perder um ente querido que “Deus quis assim”? Ninguém está com vontade de ouvir isso nessa hora! Desnecessário. Depois do meu post, falei com várias mulheres que perderam filhos (!) e ouviram inúmeras vezes (!!!) que poderiam ter outros, que tinham que ser fortes e que Deus quis assim. Vamos nos colocar no lugar dessas mulheres: você acha que essas coisas melhoram o sofrimento delas? Ou geram um sentimento profundo de incompreensão e solidão? Elas se sentem sozinhas e incompreendidas diante da dor imensa que sentem. Mas, diante desses comentários, claro, ficam quietas (e com raiva). Vou repetir ainda mais uma vez: eu SEI que a gente (me incluo nessa) não sabe o que dizer diante do sofrimento alheio e que as coisas que dizemos normalmente são com a melhor das intenções. Justamente por isso eu escrevo esse post, como uma tentativa de alerta e crescimento para todos nós, inclusive eu. Eu também não sei o que dizer diante do sofrimento de muita gente, tenho essa consciência.

O que poderíamos dizer, então? Ou fazer? Uma coisa é simplesmente se mostrar mais presente, convidando para fazer alguma coisa junto, fazendo uma visita, fazendo alguma coisa que você saiba que a pessoa gosta (exemplo: um bolo, levar uma flor, assistir a um filme…). Simplesmente mostrar, através de ações, que ESTÁ PRESENTE. Sobre dizer, na minha opinião, o que pode ser dito é: “Querida(o), posso imaginar o que você esteja passando e sentindo nesse momento. Sei que está sofrendo e nada do que eu possa dizer vai mudar a sua situação. Mas eu quero que saiba que estou aqui para você, pensando em você, torcendo por você e querendo seu bem. Vou ficar muito feliz em poder ajudar no que puder, se tiver qualquer coisa que eu possa fazer você vai me deixar muito feliz em me pedir!”. Ponto. Nem é preciso dizer tudo isso, afinal, se a pessoa não for muito próxima isso pode soar estranho. Mas esse é o sentimento que eu acho que devemos ter diante de pessoas passando por problemas.

Escrevendo esse post eu me lembrei de uma pessoa que faz isso com maestria, acho que aprendi muito com ela e seria injusto não “dar as honras” neste momento: minha mãe. Ela nunca minimizou nosso sofrimento pelo que quer que seja. Sempre se mostrou empática, se colocando no nosso lugar e dizendo coisas do tipo: “Eu sei que é difícil. Você tem razão de estar triste. O que eu posso fazer por você?”. Parece simples, não? O problema é que isso significa estar abrindo o coração para se mostrar totalmente presente e disponível, algo que nem todos estão dispostos ou podem fazer. Lembro que uma vez, durante o tratamento, eu fiquei de mau humor e dei uma resposta atravessada para ela. A resposta dela foi: “você tem toda razão de ficar de mau humor, aproveita para descontar em mim que sou sua mãe”. Mas ela falou isso de verdade, realmente querendo dizer isso! É lógico que me desarmou totalmente e eu pedi desculpas e não fiquei descontando nela, mas ela estava disposta a estar lá se eu precisasse, mesmo para isso! Choquei! Por isso que ela se revolta quando dizem que mãe é tudo igual… Claro que ninguém tem que viver “apanhando” dos outros, não é o que eu estou dizendo. Quem me conhece sabe que  longe disso, claro que todo mundo tem que impor seus limites. Estou falando da disponibilidade em se doar nos momentos em que isso é preciso. Te amo, mã!!!

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Às vezes, as pessoas não podem mostrar esse tipo de disponibilidade porque não foram programadas para aquilo, mas foram criadas para serem “práticas” e “resolverem os problemas”, mesmo que ele seja dos outros, dizendo coisas que, no fundo, significam: “ok, já reclamou, agora chega de reclamar, não sei lidar com as suas reclamações e os seus problemas, então vamos mudar de assunto”. E, de novo, eu mesma já fiz isso inúmeras vezes (tenho até vergonha agora rsrsrsrsr). Porque realmente não sabemos como lidar com o sofrimento em geral. E também tem muita gente que é competitiva, vocês sabem! E invejosa… e quer que só os seus problemas tenham importância, então como alguém ousa estar sofrendo mais que eu? Ou mais que meu conhecido/amigo/parente/vizinho sei-lá-o-quê? Tem gente que não suporta ver o sofrimento dos outros porque isso o tira da zona de conforto, mostra como seus problemas podem ser pequenos, mostra como somos/ podemos ser vulneráveis e mostra que existem outras pessoas além dela mesma no mundo. Triste, mas é verdade.

E por fim, não dá para encerrar esse post mostrando um pouco o outro lado! O do sofredor-problema. Aquele que esquece que existe mundo e acha que os seus problemas são os únicos que tem importância, que ele é o único no mundo com motivos para sofrer. Tem aquelas pessoas que são sofredoras compulsivas e sofrem por tudo na vida, passam o dia e a vida a reclamar. Claro que essas dicas que eu estou dando não valem para essas, ok? Aí é outro caso. Vamos abrir o coração e ter equilíbrio, saber que tem hora de sofrer, hora de apoiar, hora de sorrir e hora de levar o sorriso ao próximo. Um por todos e todos por um, como deveríamos ser como irmãos que somos.

Namastê!